Por Chris Noon, da GE Brasil

Na imaginação popular, o Brasil é um eterno carnaval de sol, samba e futebol na areia do Rio de Janeiro. No entanto, muitos brasileiros afirmam que o verdadeiro Brasil é, na verdade, a região nordeste do país, local muito distante das praias douradas de Copacabana e Ipanema. O Nordeste é o lar da capoeiraa hipnótica arte marcial afro-brasileira; do mítico sertão do país; e do forróa música folclórica cantada pelos agricultores na esperança de colheitas abundantes de milho, cana e café.

Porém, embora o Nordeste possa ser rico em espírito e cultura, é a mais pobre das cinco regiões do Brasil. A área possui quase 30% da população brasileira (60 milhões de pessoas), mas gera pouco mais de 13% do PIB do país. E apesar de todos os capoeiristas, ela também precisa de mais energia. O Nordeste produziu apenas 10–15% da energia do país nos últimos anos.

Mas há boas notícias no horizonte: uma enorme usina com as turbinas a gás mais eficientes do mundo deve transformar a região em um farol da indústria energética brasileira.

A usina Porto de Sergipe I, na pequena costa do Sergipe, passou com sucesso em seus primeiros testes de acionamento e de sincronização, em dezembro, etapas críticas nas quais os engenheiros dão a partida e conectam, pela primeira vez, umas das três poderosas turbinas a gás 7HA.02 construías pela GE à rede elétrica nacional. “Estamos muito orgulhosos desse marco e sabemos que estamos gerando energia confiável para o povo brasileiro “, diz Luciano Silva, diretor de projetos da GE Gas Power. As três turbinas, em conjunto com outra gigante turbina a vapor, além de três caldeiras de recuperação de calor (HRSG), são capazes de gerar colossais 1,5 GW, ou cerca de 15% da demanda energética da região Nordeste. De fato, a Porto do Sergipe I será a maior usina a gás de ciclo combinado da América do Sul.

Mas a Porto do Sergipe I não é apenas um benefício para o Nordeste. Quinto maior país do mundo, o Brasil possui uma rede elétrica interconectada, o que significa que a eletricidade gerada pela usina pode ser transportada para praticamente qualquer lugar do país, desde os escaldantes semidesertos do Nordeste até as planícies cobertas de grama do Sul. E o projeto é importante além da “simples” eletricidade que fornecerá — a tecnologia GE usada pela usina oferece ao Brasil flexibilidade extra para gerenciar sua rede elétrica rica em fontes renováveis.

A demanda energética do Brasil depende de energia hidrelétrica em cerca de 75% e a regra geral é que, quanto mais chove, menos o Brasil precisa queimar carvão, petróleo e gás, e vice-versa. Portanto, quando os gigantes reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil ameaçam secar, como aconteceu com frequência no período 2011–2015, os combustíveis fósseis entram em conflito.

É por isso que a seca obriga o setor elétrico brasileiro a importar gás natural liquefeito (GNL), que é o gás natural que foi resfriado a uma temperatura de -605 °F (-160 °C), reduzindo seu volume em um fator de aproximadamente 600. Nos últimos anos , suprimentos do combustível têm chegado ao Brasil em cascos de enormes navios vindos dos Estados Unidos, Caribe e África Ocidental. Quando o GNL chega aos três terminais do Brasil no Rio de Janeiro e nos estados da Bahia e Ceará, é regaseificado e canalizado para vários geradores que compraram parte da carga.

O sistema nem sempre é perfeito: como o país está à mercê dos elementos da natureza como a chuva e nem sempre pode projetar sua demanda por GNL a longo prazo, muitas vezes se pagou um preço mais alto no mercado à vista pela entrega a curto prazo do combustível, em contratos de longo prazo para cargas mais baratas que podem não ser necessárias.

No entanto, a usina Porto do Sergipe I, que é um projeto integrado de GNL construído no litoral, é um pouco diferente. A Centrais Elétricas de Sergipe (CELSE), a operadora do projeto, tem um contrato de 25 anos para importar até 1,3 milhão de toneladas de GNL da Ocean LNG, uma afiliada da Qatar Petroleum, maior produtor mundial de combustível líquido. A CELSE armazenará o GNL em uma unidade de armazenamento e regaseificação (FRSU), uma embarcação gigante atracada a poucos quilômetros de Aracaju, capital do Sergipe. Se a CELSE solicitar uma nova carga para abastecer o FRSU, a Ocean LNG terá o compromisso de entregá-la em dois meses. Este acordo oferece à CELSE um suprimento seguro e exclusivo de GNL com preço competitivo, além de muita flexibilidade. “Eles podem ‘brincar’ com o envio de energia de acordo com os níveis do reservatório”, diz Silva.

Felizmente, a usina é um cliente ágil, apesar de seu tamanho. Silva diz que ela pode passar do off-line (desligada) para a potência máxima em apenas algumas horas. “É como um carro: basta colocar combustível e está pronto para funcionar.”

Durante uma época de seca, se a Porto do Sergipe estiver funcionando a plena carga, a usina poderá abrir caminho queimando até 20 cargas de GNL por ano. Isso significa que um navio de GNL pode navegar para Sergipe a cada duas ou três semanas, diz Silva. Mas se o Brasil desfrutar de um verão chuvoso, a usina pode precisar de muito menos entregas e confiar no reservatório flutuante.

Seja qual for o clima, Silva diz que a eletricidade de Porto do Sergipe I terá um preço competitivo em comparação com outras formas de geração de energia proveniente de combustíveis fósseis no Brasil. O preço do GNL não foi divulgado, mas os contratos de longo prazo para o combustível geralmente exigem preços mais baixos, pois reduzem o risco do fornecedor. Também houve forte concorrência no fornecimento de gás ao projeto de Sergipe em 2015, quando a CELSE venceu um importante leilão de capacidade de energia. A Porto do Sergipe I poderá enviar energia para a rede por cerca de R$ 200–250/MWh (US $ 49,13–61,41 / MWh), valor que Silva diz ser aproximadamente quatro vezes menor do que o cobrado pela geração termelétrica nos últimos anos. “Cerca de 90% do preço é composto pelos custos de combustível”, diz ele.

Os brasileiros também podem agradecer às turbinas recordistas mundiais da Porto do Sergipe I por suas contas de eletricidade mais baixas. A turbina 7HA.02, parte de uma plataforma reconhecida por alimentar as usinas de energia mais eficientes do mundo na França e no Japão , permitirá conservar esses preciosos estoques de GNL. Ao longo de vários anos, as três turbinas da Porto do Sergipe I economizarão dezenas de milhões de dólares em custos de combustível em comparação com seus pares. “Essa flexibilidade, eficiência e baixos custos de despacho são a razão pela qual nosso operador da rede nacional (ONS) gosta de Sergipe”, diz Silva.

Porém, o projeto é mais do que três poderosas turbinas a gás natural. O sistema de ciclo combinado da usina significa que o calor gerado pela exaustão das turbinas não é desperdiçado, mas inserido em um gerador de vapor onde é utilizado para ferver a água. O vapor gerado durante essa operação gira outra turbina conectada a um gerador separado. A combinação desses dois ciclos termodinâmicos — gás e vapor — melhora a eficiência geral da planta e reduz os custos de combustível. Cada turbina a gás pode gerar cerca de 320 MW de eletricidade, ou seja, com as três turbinas operando em paralelo, a produção chega a quase 1 GW. A turbina a vapor tem uma potência máxima de 500 MW. “Esse total de 1.500 MW é colossal”, diz Silva. “Está no alcance de uma usina nuclear.”

De fato, a Porto do Sergipe I pode gerar energia suficiente para abastecer toda a Nicarágua e ainda ter mais de 100 MW em reserva. Certamente afastará o Nordeste das importações de eletricidade das regiões Norte e Sudeste, que atualmente ajudam a manter as luzes acesas nas grandes cidades de Recife, Fortaleza e Salvador.

Silva explica que o escopo e a natureza do projeto também foram extraordinários para a GE, que construiu não apenas a usina, mas também a infraestrutura necessária para transportar a eletricidade para a rede elétrica do país: os 34 quilômetros de linhas aéreas e a subestação de 500kv, que aumenta a potência em altas tensões para ser transportada para longas distâncias. Normalmente, a GE fornece equipamentos para projetos de energia e fornece consultoria técnica, mas em Sergipe, Silva diz que a empresa adquiriu, projetou e construiu todas as porcas e parafusos da usina, linhas de transmissão e a subestação.

O projeto exigiu o envolvimento de uma ampla gama de partes interessadas: milhares de trabalhadores locais, líderes comunitários, empresas locais e governo. “Precisávamos tornar isso benéfico para todos”, diz Silva. Um ponto especial de orgulho? Garantir que dos 3.000 funcionários da força de trabalho, 60% deles fossem moradores locais, extraindo o máximo de benefício da construção da usina. Silva explica que a GE montou programas sociais e centros de treinamento onde os trabalhadores poderiam aprender no trabalho e obter certificados que os serviriam muito além do primeiro teste com a turbina: “Por exemplo, precisávamos de soldadores qualificados, por isso ensinamos a eles o ofício”.